Apresentação

SOBRE O SEMINÁRIO INTERNACIONAL DESFAZENDO GÊNERO

O Seminário Internacional Desfazendo Gênero foi criado por pesquisadora/es em diálogo com ativistas articulada/os pela problematização de como dinâmicas combinadas de sexualização e racialização dos corpos atuam na tessitura dos processos sociais, constituindo uma potente estratégia para compartilhar dificuldades em inserir as interpelações epistemológicas, teórico-conceituais, metodológicas e políticas aportadas pelo queer nos eventos já existentes no Brasil.

A primeira edição ocorreu entre 14 a 16 de agosto de 2013, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, organizada pelo Núcleo Tirésias, sob a coordenação da prof. Dra. Berenice Bento, com o tema “Subjetividade, Cidadania e Transfeminismo”. Contou com a conferência de abertura com a socióloga Marie-HélèneBourcier, 5 minicursos, 8 mesas temáticas, lançamento de livros, mostras artísticas (com teatro e cinema) e a apresentação de pesquisas e artigos em 39 Simpósios Temáticos.

A segunda edição foi realizada pelo grupo Cultura e Sexualidade/UFBA, sob a coordenação do prof. Dr. Leandro Colling. Com o tema “Ativismos das Dissidências Sexuais e de Gênero” aprofundou o compromisso com a visibilidade da dissidência identitária como resistência e com o protagonismo das identidades “trans” nas universidades brasileiras. Contou com a conferência de abertura realizada pela filósofa Judith Butler, a participação de cerca de 1.500 pessoas, apresentação de 759 trabalhos em 71 Simpósios Temáticos e 50 em pôsteres, além do lançamento de dezenas de livros, mostras artísticas com shows, performances e peças teatrais.

A terceira edição a ser realizada em Campina Grande vem sendo preparada desde o início do ano de 2016, através de um conjunto articulado de eventos como minicursos, rodas de diálogo, apresentação de pesquisas e intervenções. Nestes espaços discutiu-se a importância das provocações epistemológicas aportadas pelo queer's para pensar os desafios contemporâneos e suas implicações metodológicas. Também se construiu a proposta da terceira edição.

 

O 3º Seminário Internacional Desfazendo Gênero em Campina Grande, Paraíba.  

 

A realização do evento em Campina Grande, interior da Paraíba, adensa a radicalidade do propósito político que informa sua criação, anunciado desde a primeira edição: contribuir para modificar a geopolítica da produção de conhecimento, enfatizando a importância do trabalho que vem sendo desenvolvido no Nordeste do Brasil.

O município está localizado no Planalto da Borborema, microrregião de Campina Grande e mesorregião do Agreste Paraibano, a aproximadamente 130 quilômetros da capital do estado, João Pessoa. Sua população em 2016 foi estimada pelo IBGE em 407.754 habitantes. Considerado um dos principais pólos industriais do Nordeste e um dos principais pólos tecnológicos da América Latina, se destaca na oferta de ensino superior, médio e técnico, constituindo-se no espaço com a maior quantidade de doutora/es por metro quadrado do Brasil. Simultaneamente, é também território de contrastes sociais profundos, a única não-capital a figurar em 2015 como uma das cidades mais violentas do país, como consta no relatório divulgado pelo Conselho Cidadão para a Segurança Pública e a Justiça Penal.

Os indicadores apontam para a forma como processos de racialização e sexualização estão presentes na ordenação das dinâmicas sociais que tecem a vida por aqui. Nesse contexto se amarram as trajetórias de Michele, Jussara e Ana Alice, as “mulheres de Queimadas”; de Ninete, “travesti”, “prostituta”, “preta” e “deficiente”; de professor Valderi, homossexual assassinado por um grupo de adolescentes da cidade. Corpos afeminados, violentados e assassinados por ideais de normalidade que recorrem às marcações de gênero, raça e sexualidade para dispor sobre a ocupação local do espaço.  A inexistência de iniciativas públicas para enfrentar tais situações no âmbito da institucionalidade municipal completa o cenário e diz sobre como a heteronormatividade tece a vida por aqui.

O Desfazendo Gênero significa para nós a oportunidade de aproveitarmos as potencialidades políticas do evento e por em relevo a articulação e a atuação de marcadores da diferença articulados a processos de racialização e sexualização na produção de dinâmicas de subalternização e resistência no espaço em que nos encontramos inserida/os; de aprendermos com experiências e práticas sociais que materializam outros modos de lidar com a diferença e utilizá-la como base para uma reconfiguração da relação saber-poder-fazer; de tomar essas questões como mote para intervenções estratégicas na geopolítica do conhecimento.

O que esperar do 3º Seminário Internacional Desfazendo Gênero

O 3º Seminário Internacional Desfazendo Gênero vem sendo preparado desde o final de 2015, através de um conjunto articulado de eventos como minicursos, rodas de diálogo, apresentação de pesquisas e intervenções. Nestes espaços discutiu-se a importância das provocações epistemológicas aportadas pelo queer para pensar os desafios contemporâneos e suas implicações ao delineamento de estratégias metodológicas para a produção do conhecimento e atuação política.

Também nesses espaços se construiu a proposta da terceira edição, que aprofundará problematizações às dinâmicas que tecem desafios sociais atuais; à maneira como processos articulados de racialização e sexualização adensam as tecnologias de controle sobre indivíduos e promove os arranjos socioeconômicos e políticos em voga; como tal estratégia incide na produção continuada de “novas massas” de corpos exploráveis e extermináveis como marca de um regime econômico e político. Problematizará ainda o esvaziamento heurístico e político de modelos analíticos utilizados para referenciar a localização de atore/as sociais que se posicionam contra o avassalador agravamento das
desigualdades que dão face à colonialidade global.

Tendo em vista que os temas centrais do evento vêm inflacionando o “mercado discursivo” em diversos espaços (não raro capciosamente atrelados a logísticas de dominação), destaca-se sua relevância estratégica para os dias atuais, as valiosas chaves fornecidas à renovação da crítica às nossas abordagens e interpelações à realidade social, apresentando valiosas contribuições a todas as pessoas envolvidas.

Para professore/as e pesquisadore/as, estudantes de pós-graduação e graduação, oportunizará a divulgação de estudos, pesquisas e insights, além da troca de experiências e possibilidades de articulação em rede com práticas universitárias de diversos países e distintas regiões do Brasil, pertencentes a diferentes áreas e níveis de conhecimento, contribuindo, dessa maneira, para superação de distâncias entre pesquisadore/as que
compartilham interesses e preocupações.

Para profissionais da educação básica, ativistas e demais atore/as sociais, com atuação relacionada aos temas articuladores do evento, proporcionará, além de ricos intercâmbios, o acesso a subsídios que podem ser utilizados para adensar a capacidade de localização estratégica na complexa engenharia do controle e dominação; a
possibilidade de exercitar a apropriação de potentes interpelações epistemológicas que possibilitam acurar a capacidade de argumentação e planejamento de ações e políticas estratégicas de enfrentamento aos efeitos articulados da racialização e sexualização. Ao problematizar as infinitas possibilidades de condicionamento do comportamento da população mundial em grande escala, inclusive dos aparatos governamentais, contribuirá
para o delineamento de estratégias que ajudem a desvencilhar-se do controle implícito na institucionalidade, a negociar políticas transitando de maneira mais estratégica nesse espaço.

Além disso, será também uma oportunidade para aprofundar a interlocução de diferentes atore/as articulados pelas práticas universitárias com experiências ricas em exercícios cotidianos inventados como forma de resistir aos mais adversos contextos em que se configuram efeitos articulados da sexualização e racialização, conhecer a potência da
resistência que acalentam e com elas aprender a resistir. Constituir-se- á, dessa maneira, numa oportunidade para negociar agenda de pesquisas e outras atividades acadêmicas entre todas as pessoas envolvidas.

Por fim, ao assinalar que o exercício de marcar os corpos como “diferentes” está atrelado às relações com a ciência e tecnologia e, por isso, enfatizar a importância estratégica do conhecimento na rearticulação política das forças sociais, contribuirá também para repensar a universidade, a renovação de seus vínculos sociais, a busca por novos motes para a rearticulação do ensino, formação profissional, pesquisa, extensão universitária, inovação tecnológica e criação artístico-cultural.